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A internet que cresce com eles/as — E, às vezes, contra eles/as

Atualizado: 10 de fev.


Segundo dados da Polícia Judiciária, de 2020 a 2024 registaram‑se 437 condenações por pornografia infantil ou crimes sexuais online, sendo que as crianças representam cerca de dois terços das vítimas.
Segundo dados da Polícia Judiciária, de 2020 a 2024 registaram‑se 437 condenações por pornografia infantil ou crimes sexuais online, sendo que as crianças representam cerca de dois terços das vítimas.

Hoje, dia 10 de fevereiro, assinala-se o Dia da Internet Mais Segura, o qual se tornou mais do que uma data de sensibilização. É, hoje, um momento de pausa coletiva para pensar num ambiente que deixou de ser apenas “virtual” e passou a ser parte estrutural da vida das crianças e jovens. A internet já não é um espaço separado do quotidiano: é onde se aprende, conversa, joga, cria, experimenta, falha e cresce. E, nos últimos anos, tornou‑se, também, um espaço profundamente moldado por sistemas de inteligência artificial (IA) que influenciam o que vemos, o que sentimos, e até no que acreditamos.


As redes sociais, que antes funcionavam sobretudo como plataformas de partilha, são agora ecossistemas complexos, guiados por algoritmos que selecionam conteúdos com base em padrões de comportamento. A IA generativa acrescentou outra camada: a capacidade de produzir imagens, textos, vídeos e identidades inteiras que parecem reais, mas não o são. Para crianças e jovens — que estão em pleno processo de construção de identidade, pensamento crítico e autonomia —, este ambiente é, simultaneamente, fértil e arriscado.


As potencialidades são evidentes. A internet democratiza o acesso ao conhecimento, permite criar comunidades de apoio, amplia oportunidades educativas, e dá voz a quem, noutros tempos, teria permanecido invisível. A IA pode apoiar aprendizagens, facilitar acessibilidade, estimular criatividade e ajudar a resolver problemas complexos. Mas, ao mesmo tempo, surgem riscos que não existiam há uma década: conteúdos manipulados, desinformação, deepfakes, desafios virais perigosos, algoritmos que reforçam vulnerabilidades emocionais, exposição precoce a discursos de ódio, sexualização e violência.


A fronteira entre o que é seguro e o que é perigoso tornou‑se mais difusa. E isso exige dos adultos — famílias, escolas, profissionais e instituições — uma atenção renovada, mais informada e mais crítica.


Neste cenário, o papel das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) ganha uma relevância particular. As CPCJ não são entidades tecnológicas, mas são entidades humanas que lidam com as consequências muito reais do que acontece no digital. São chamadas a intervir quando o online se transforma em risco offline: situações de cyberbullying, exposição a predadores, partilha não consentida de imagens, dependência digital, desafios que colocam a integridade física em causa, ou impactos emocionais que se tornam visíveis na escola, na família ou no comportamento.


A intervenção das CPCJ neste domínio não se limita à resposta. Implica compreender o contexto digital, dialogar com as famílias, articular com escolas e forças de segurança, e ajudar a construir estratégias de prevenção que façam sentido para cada criança. Implica reconhecer que o risco não está apenas no conteúdo, mas, também, na forma como os algoritmos moldam a experiência online. E implica, sobretudo, não cair na tentação de demonizar a tecnologia, mas de a enquadrar de forma crítica e equilibrada.


Hoje, a proteção exige novas competências: literacia digital, leitura crítica de imagens e vídeos, compreensão dos mecanismos de recomendação, capacidade de identificar manipulação emocional e sensibilidade para perceber quando o digital está a amplificar fragilidades já existentes. As CPCJ, pela sua natureza multidisciplinar, têm condições para promover esta abordagem integrada, articulando saberes e aproximando diferentes setores da comunidade.


Assinalar o Dia da Internet Mais Segura é, por isso, reconhecer que a proteção das crianças e jovens não pode ficar presa a modelos antigos. O mundo mudou — e continua a mudar a uma velocidade difícil de acompanhar. A resposta não está em afastar as crianças da tecnologia, mas em garantir que não a enfrentam sozinhas. Está em criar condições para que naveguem com autonomia, mas, também, com apoio; com liberdade, mas, também, com consciência; com curiosidade, mas, também, com ferramentas para se protegerem. E está, inevitavelmente, no trabalho das equipas que, nas CPCJ, lidam diariamente com estas novas formas de risco. Equipas que escutam, analisam, articulam e intervêm num território onde o digital e o emocional se entrelaçam. Equipas que, mesmo sem o controlo dos algoritmos, têm um papel fundamental: o de garantir que, por detrás de cada ecrã, há sempre uma criança inteira — e que essa criança continua a ser vista, compreendida e protegida.

 
 
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